Dra. Lia Alves Schinetski, PHD

Relação ente Coluna Cervical e Disfunção da ATM

 

 

Esse post é voltado para profissionais de saúde, por isso é escrito com uma linguagem mais técnica. Se você é paciente, cadastre-se no blog e em breve você receberá nosso novo post sobre esse assunto, em uma linguagem mais simples, para leigos. 

 

 

Quando falamos em Disfunção da ATM, geralmente os profissionais de saúde pensam em estalos, deslocamentos e travamentos da articulação chamada ATM. Mas Disfunção da ATM (ou a sigla DTM) não é só isso. Ela consiste de um grande grupo de patologias que afeta os músculos mastigatórios, a ATM e/ou estruturas relacionadas.

 

A etiologia da ATM é multifatorial e, dentre os fatores envolvidos com o aparecimento ou a perpetuação dos sintomas de DTM destacam-se também os problemas na coluna cervical. Isso ocorre porque a ATM tem conexão muscular e ligamentar com a região cervical, além da convergência de aferências da região orofacial e cervical no núcleo trigeminocervical.

 

 

 

Base neuro-anatômica para relacionamento entre cabeça e pescoço

 

A literatura é clara na afirmação que os tecidos da coluna cervical referem dor para a área orofacial e para a cabeça. O mecanismo neuroanatômico que explica a dor referida é a convergência entre aferências trigeminais e aferências dos três nervos cervicais superiores. Essa convergência ocorre em uma área chamada núcleo trigeminocervical (Kraus, 2007).

 

 

 

Relação entre postura de cabeça e pescoço e DTM

 

Uma das alterações posturais mais comumente observadas no pescoço, e que interferem no funcionamento da ATM, é a anteriorização da cabeça, que gera extensão cervical com aumento da lordose superior, quando o indivíduo a corrige para as necessidades visuais.

 

Essa postura inadequada da cabeça leva a tensão das cadeias tanto posterior quanto anterior, criando hiperatividade nos músculos suboccipitais, como também nos esternocleidomastoideos e nos músculos hioideos, o que modifica a posição do osso hioide e, consequentemente, a ação dos músculos da mastigação, criando uma postura viciosa na ATM, onde o côndilo assume posição mais posterior, podendo ocasionar compressão dos tecidos retrodiscais e até mesmo criar um quadro patológico articular muito comum nas disfunções temporomandibulares, chamado de retrodiscite (Tenreiro & Santos, 2011).

 

Além disso, a rotação posterior do crânio resulta em deslocamento anterior da maxila em relação à mandíbula e translação para a frente pela ação do músculo pterigoideo lateral para manter o suporte oclusal. Esses movimentos levam a hiperatividade do músculo pterigoideo lateral, que pode levar ao deslocamento do disco articular (Uritani et al., 2014).

 

 

 

Relação entre Disfunção cervical e DTM     

 

Armijo-Olivo & Magee (2012) encontraram forte correlação entre disfunção cervical e disfunção da ATM. A postura craniocervical foi estatisticamente diferente entre pacientes com DTM muscular e grupo controle. Pacientes com DTM apresentaram padrão anormal de contração dos músculos flexores cervicais e aumento na incidência de fadiga nos músculos flexores e extensores cervicais, comparados a indivíduos saudáveis.

 

A maior parte dos pacientes com DTM também são mais sensíveis a testes térmicos e mecânicos nos músculos da região cervical e do ombro, o que raramente acontece em indivíduos do grupo controle (De Laat et al., 1998; Greenspan et al., 2011).

 

Catanzariti et al. (2005) relatam que injúrias à mandíbula espalham dor para a região do pescoço e vice-versa, e essa sensação de dor às vezes persiste ou aumenta com o passar do tempo, mesmo quando aparentemente já houve a melhora do tecido. Isto acontece principalmente pela sensibilização central.

 

 

 

Tratamento interdisciplinar

 

Von Piekartz & Hall (2013) demonstraram que a combinação da terapia manual para coluna cervical com o tratamento orofacial é efetiva no controle dos sintomas de DTM. Esses autores investigaram pacientes com dor mista, apresentando características de cefaleia cervicogênica associadas a sinais de DTM. Em alguns pacientes, como no caso dessa pesquisa, pode ser impossível identificar uma única fonte de dor, devido à complexa interação entre coluna cervical e DTM. Foi observado que a adição de tratamento orofacial à terapia manual de tratamento cervical trouxe efeitos benéficos aos pacientes.

 

Walczynska-Dragon et al (2014) tiveram como objetivo avaliar o tratamento de DTM em pacientes  com dor cervical associada a sintomas de DTM, além de limitação na amplitude de movimentação cervical. Os pacientes do grupo de tratamento usaram uma placa oclusal durante três meses, enquanto os do grupo controle foram orientados a controlarem por conta própria os hábitos parafuncionais. Os resultados demonstraram que o tratamento com placa oclusal promoveu significativa melhora na função da ATM e redução na dor cervical, além do aumento na mobilidade cervical.

 

 

 

Conclusão

 

Com relação à abordagem do paciente, é importante que cada especialista contribua com seu conhecimento específico para o processo do diagnóstico diferencial de forma que seja determinado um correto plano de tratamento.

 

Quando o dentista, o ortopedista e o fisioterapeuta trabalham de forma interdisciplinar nos casos de pacientes que têm cefaleia cervicogênica ou disfunção cervical associada à disfunção da ATM, todos só têm a ganhar, tanto os profissionais quanto o paciente.

 

Se um profissional decide tratar esse tipo de paciente sozinho, apenas na sua área de atuação, provavelmente a dor vai diminuir, mas não cessar completamente. E o paciente vai continuar retornando ao consultório com queixa de dor persistente. Quando passam meses sem a solução completa da dor, maior é a sensibilização central e mais difícil o controle da sintomatologia.

 

Por outro lado, quando um profissional faz a sua parte e trabalha em equipe com outros colegas, a abordagem multidisciplinar terá um índice de sucesso bem maior. Consequentemente, a satisfação do paciente e a consideração pelo profissional que direcionou ao tratamento em equipe vão aumentar e certamente serão colhidos bons frutos desse bom relacionamento.

 

 

 

Referências bibliográficas

Kraus S. Temporomandibular disorders, head and orofacial pain: cervical spine considerations. Dent Clin North Am. 2007 Jan;51(1):161-93

Tenreiro M, Santos R. Terapia manual nas disfunções da ATM. Ed. Rubio: Rio de Janeiro, 2011.

Uritani D, Kawakami T, Inoue T, Kirita T. Characteristics of Upper Quadrant Posture of Young Women with Temporomandibular Disorders. J Phys Ther Sci 2014; 26: 1469–72

Armijo-Olivo S, Magee D. Cervical Musculoskeletal Impairments and Temporomandibular  Disorders. J Oral Maxillofac Res 2012; 3:1-18.

De Laat A, Meuleman H, Stevens A, Verbeke G. Correlation between cervical spine and temporomandibular disorders. Clin Oral Investig 1998;2:54–57.

Greenspan JD, Slade GD, Bair E, et al. Pain sensitivity risk factors for chronic TMD: Descriptive data and empirically identified domains from the OPPERA case control study. J Pain 2011;12(11 suppl):T61–T74.

Catanzariti JF, Debuse T, Duquesnoy B. Chronic neck pain and masticatory dysfunction. Joint Bone Spine 2005;72:515–519.

von Piekartz H, Hall T. Orofacial manual therapy improves cervical movement impairment associated with headache and features of temporomandibular dysfunction: a randomized controlled trial. Man Ther. 2013 Aug;18:345-50.

Walczyńska-Dragon K, Baron S, Nitecka-Buchta A, Tkacz E.Correlation between TMD and cervical spine pain and mobility: is the whole body balance TMJ related? Biomed Res Int. 2014;2014:582414.

 

 

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