Dra. Lia Alves Schinetski, PHD

Botox: uma nova modalidade de tratamento para quem tem Disfunção da ATM ou Bruxismo

 

Botox é o sonho de consumo de muitas mulheres. Quem não quer deixar a pele mais lisinha e se livrar daquelas indesejáveis rugas ao redor dos olhos?

 

Desde a década de 70 existem pesquisas para o uso terapêutico e há muitos anos o Botox vem sendo usado para fins estéticos.

 

A novidade é o uso do Botox na Odontologia. Ele foi regulamentado mais recentemente, em 2011, inclusive para tratamento de bruxismo e Disfunção da ATM (DTM).

 

A toxina botulínica é uma medicação que age reduzindo a atividade da musculatura, por isso pode auxiliar no tratamento destes pacientes, que geralmente usam a musculatura da face em excesso, por apertar ou ranger dentes.

 

Quando o Botox é aplicado, a capacidade do músculo de apertar os dentes fica reduzida e consequentemente diminui a dor nos músculos da face.

 

 

 

Os resultados para tratamento de DTM são bons?

 

Diversas pesquisas realizadas no mundo inteiro tem comprovado a eficácia do Botox no tratamento de dor relacionada à DTM1-4.

 

Uma pesquisa publicada por cientistas de três Universidades Norte Americanas muito bem conceituadas (Harvard, Columbia e Georgetown) relatou que o Botox promove alívio significativo da dor facial de boa parte dos pacientes, diminuindo a intensidade, a frequência e a duração dos episódios de dor1.

 

Esses pesquisadores trataram 100 pacientes, sendo que 60% deles tiveram bons resultados. Os resultados foram considerados bons quando os pacientes sentiam que a intensidade e a frequência da dor caíam pelo menos pela metade.  Em 7% dos pacientes a dor melhorou completamente. E em outros 7% a dor permaneceu igual.

 

Aí você pode questionar… então não é todo mundo que melhora da dor quando faz Botox?

 

Não, não é todo mundo que melhora. Botox é um ótimo medicamento, mas infelizmente não faz milagres!

 

Não existe nenhum tratamento único para DTM que faça milagres. Vou explicar o porque…

 

DTM é um termo que engloba um monte de diferentes situações clínicas que envolvem o mau funcionamento da articulação da face (ATM) ou dos músculos envolvidos na mastigação, ou ainda de várias estruturas ao mesmo tempo. Por isso não existe um único tratamento que possa tratar adequadamente todas essas diferentes condições.

 

Outra coisa que deve ser levada em consideração é que, na maioria das pessoas, a DTM não é causada por um único fator. Ou seja, provavelmente você não vai ter DTM só porque tem os ligamentos da articulação mais frouxos, mas se, além disso, você também ficar rangendo os dentes, pode ser que você desenvolva a DTM.

 

É por isso que o tratamento de DTM geralmente associa várias opções terapêuticas, como o uso de placas de acrílico, exercícios musculares, fisioterapia, psicoterapia, aplicação de laser e agulhamento de pontos de gatilho. O Botox é uma nova opção que pode entrar nessa lista como um tratamento complementar; nunca como um tratamento único.

 

Na mesma pesquisa que eu citei acima, os autores ressaltam que eles tratam com Botox os pacientes que não melhoraram depois de terem tentado as demais terapias conservadoras, e antes que eles sejam encaminhados para tratamento cirúrgico. Acho esse um ponto muito importante para decidir se você deve ou não fazer botox.

 

 

Como são os resultados do botox para o bruxismo do sono?

 

O hábito de apertar ou ranger os dentes enquanto a pessoa está dormindo é um dos distúrbios de sono mais comuns.

 

Muita gente que tem bruxismo desenvolve os sintomas de DTM (dor na musculatura da face, estalos, dor ou dificuldade para abrir a boca, dor de ouvido, etc) e o problema é que não existe tratamento que faça a pessoa parar de ranger ou apertar dentes. Isso é uma condição determinada pelo cérebro, assim como outros distúrbios que também acontecem durante o sono, como o sonambulismo, por exemplo.

 

Então o que o dentista faz é um “gerenciamento” do bruxismo, para evitar que ele cause danos à ATM, dor muscular e desgaste dos dentes. O que sempre se usa nesses casos é uma placa de mordida.

 

No ano passado um grupo de dentistas sul-coreanos publicou uma pesquisa inédita que investigou por meio de um exame do sono (polissonografia) o resultado do botox para o bruxismo5. Eles concluíram que o botox não faz a pessoa parar de ranger, mas diminui a intensidade de contração dos músculos. Por isso, 90% dos pacientes relataram que sentiram melhora na rigidez da musculatura 1 mês após a aplicação do botox.

 

 

Quando o efeito da aplicação começa?

 

Ele começa a partir de 48 horas após a aplicação e o efeito máximo pode ser observado em 2 semanas após.

 

 

O efeito é permanente?

 

Não. O efeito começa a diminuir, em média, de 3 a 4 meses após a aplicação. Depois de aproximadamente 6 meses a aplicação deve ser repetida6.

 

 

Existem efeitos colaterais?

 

Sim. A maioria dos efeitos adversos ocorre quando a dosagem é muito alta. Mas mesmo com o tratamento bem realizado podem ocorrer hematomas, vermelhidão e leve inchaço. Estas reações desaparecem já nas primeiras horas. Aplicação de gelo, antes e após a injeção, pode ajudar a minimizar esses problemas. Sensações como dores de cabeça ou dores locais também podem ocorrer após a aplicação. Estes sintomas devem desaparecer em no máximo 24 horas. Os efeitos sistêmicos mais comuns são queda de pressão arterial, fadiga e náusea.

 

 

Existem restrições ao uso do botox?

 

Sim. Ainda não há muita evidência científica com relação ao uso do botox para DTM e bruxismo. A maioria das pesquisas publicadas são relatos de pacientes que foram tratados com essa terapia, mas não há muitos estudos com maior qualidade científica7.

 

É preciso que sejam feitas mais pesquisas comparando um grupo tratado, que recebeu o botox, e um grupo controle, que recebeu aplicação de soro fisiológico, o que não causa nenhum efeito no músculo. A dificuldade é que a maioria dos Conselhos de Ética não permite que os pesquisadores injetem soro no rosto dos pacientes, já que é um procedimento invasivo.

 

Por isso, ainda não há um protocolo baseado em evidências para sua utilização. Não está totalmente determinado em quais condições deve ser feito, qual a dose e locais de aplicação.

 

E não existem estudos de longo prazo para avaliar como fica depois a estrutura do músculo e do osso adjacente, principalmente depois de aplicações sucessivas.

 

 

Conclusão

 

Para terminar, existem duas questões importantes sobre o uso do botox para tratamento de DTM e bruxismo:

 

– Esse tratamento não é indicado para todas as pessoas que têm essas condições. A maioria dos pacientes de DTM (entre 75 e 90%) responde bem aos tratamentos não invasivos e de baixo custo. Pessoalmente, eu recomendo o botox para pacientes com dor crônica que não foi controlada com as outras terapias que eu já citei acima, inclusive com uma abordagem de tratamento multidisciplinar. A associação com fisioterapia, objetivando a reeducação neuromuscular, e com a psicologia visando à resolução da fonte do estresse é muito importante.

 

– O mais importante de tudo é um bom diagnóstico. Existem profissionais habilitados para a aplicação do botox, mas que não tem conhecimento específico em Dor Orofacial e DTM. Nesse caso, é importante que a indicação do tratamento e o acompanhamento sejam feitos em conjunto com o especialista em dor.

 

 

Às vezes um novo tratamento entra na moda e as pessoas menos informadas podem acabar sendo enganadas por um marketing exagerado feito por alguns profissionais. Por isso a minha intenção é que você saiba o que é verdade do ponto de vista científico. Para mim a ética e o bem estar do paciente devem estar sempre à frente de qualquer ganho financeiro.

 

 

Se você tiver dúvidas, escreva nos comentários. E compartilhe esse post com as pessoas a quem essa informação possa ser importante!

 

 

Referências

  1. Song PC et al. The emerging role of botulinum toxin in the treatment of temporomandibular disorders. Oral Dis 2007;13:253-60
  2. Tan EK et al. Bruxism in Huntington´s disease. Mov Disord 2000;15:171-3
  3. Lee et al. Effect of botulinum toxin on nocturnal bruxism. Am J Phys Med Rehabil 2010;89:16-23
  4. Guarda-Nardini L. Efficacy of botulinum toxin in treating myofascial pain in bruxers. Cranio 2008;26:126-35.
  5. Shim YJ et al. Effects of botulinum toxin on jaw motor events during sleep. J Clin Sleep Med 2014;10:291-8.
  6. Pedemonte C et al. Use of onabotulinumtoxinA in post-traumatic oromandibular dystonia. J Oral Maxillo Surg 2015;73:152-7.
  7. Tinastepe N et al. Botulinum toxin for the treatment of bruxism. Cranio 2014.

 

 

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